PENSATIVUS: Rap direto da Rocinha

Pensativus é um grupo de rap originário da zona sul do Rio de Janeiro, mais especificamente da grande favela da Rocinha e seus aproximadamente 200 mil habitantes.

O grupo é formado por Luís (OZ), Márcio, Rafael (Preto Rap) e Amaral (Gol Beats) que é o produtor do grupo que nasceu em 2007 com o intuito de divulgar e fortalecer o cenário do rap que é pouco explorado na área e expressar através das rimas idéias e contestações sociais através do ritmo e poesia (Rithm and Poetry – RAP).

Apesar de ser um conjunto com pouco tempo de existência, suas realizações são de grande relevância. Músicas compostas e divulgadas na internet e shows na área de origem deram a oportunidade de se mostrarem e serem convidados pela rádio comunitária local a participar e produzir um programa onde o foco principal é o rap.

O vocalista Luís (vulgo OZ) é um dos entusiastas do rap na localidade da Rocinha e concedeu entrevista exclusiva para o repórter Jonas Candido falando um pouco sobre rap, espaço musical no Rio e das experiências obtidas através do projeto na rádio.

Decidi convidá-lo porque fui morador da Rocinha por 2 anos e o conheci quando ele estava começando a rimar e compor suas próprias letras. Sua evolução foi rápida e quis captar um pouco do que esse jovem rimador da maior favela da América Latina tem a dizer.

A entrevista foi feita no jardim do Palácio do Catete e também tem sua divulgação no blog: https://stralarap.wordpress.com.

Referências sobre o grupo:

www.myspace.com/pensativus

Jonas Candido: Como nasceu o grupo Pensativus?

Luís OZ: A gente começou a trocar uma ideia sobre Rap, com o Gol e depois entrou o Preto Rap, começamos a rimar e gostamos, decidimos então criar o grupo Pensativus.

JC: Como é o processo de criação das músicas?

OZ: bate na cabeça do nada, na correria do dia a dia, em pé no busão começo a compor e os temas são inspirados no cotidiano da cidade mesmo e de vez em quando é legal fazer uma mais pra noite pra galera dançar e abranger um publico maior, as vezes a galera que um som mais pra dançar.

JC: Qual a proposta do grupo em relação às letras? Qual a mensagem que você quer passar?

OZ: sempre incentivo de vitória, incentivo mesmo. Tenho como inspiração o grupo SNJ pra te colocar pra cima com mensagens positivas. Pode até falar sobre algo negativo, mas sempre passando uma mensagem construtiva em cima de um tema triste.

JC: Como você vê o cenário do Rap na Rocinha?

OZ: Tem uma galera sim, tem o Velfe o guilherme rimas, tem uma galera oriunda também, mas de vez em quando bota a cara, tem o Javali, o henrique sagaz e o GBCR também que faz um rap eles não se limitam somente ao Break. Agora com o programa estamos divulgando um pouco mais o rap porque lá no morro o que predomina é o forró e o funk né. A gente brinca lá que os nordestinos dominaram a rocinha (risos).

JC: Mas você acha que tem um Rap de qualidade lá na Rocinha?

OZ: Acho que a gente faz um rap de qualidade, mas tem sim e cada um no seu estilo, o Guilherme é bem favela, o Velfe é mais gangsta, o GBCR é mais voltado pra cultura hipo-hop e o Pensativus é mais “socialzão”.

JC: E no Rio de Janeiro?

OZ: Variedade é grande, mas destaco o Gutierrez o Wallace do Fluxo, Uflow, Cone crew, De Leve, Mahal, Black Alien, Bnegão, mas cada um no seu estilo. Os caras estão botando a cara, rap de qualidade tem, o que falta é mais espaço pra divulgação da galera.

 “…lá no morro o que predomina é o forró

 e o funk né. A gente brinca lá que os nordestinos

dominaram a Rocinha…”

 JC: O que você acha que está faltando?

OZ: Está faltando mais espaço pra show, rádios que tocam rap, porque você liga a rádio e é só pagode e funk, mas escuta uma rádio de São Paulo é só rap o dia inteiro.

JC: Mas você acha que é da cultura local? Por exemplo, como o funk é originário daqui do rio, por isso que é massificado desse jeito?

OZ: Mas o funk ta dominando lá em São Paulo também, porque os caras não dão espaço pro rap aqui também? Eles (as rádios) não deixam, só toca gabriel pensador, kabal, Marcelo d2, são de qualidade, mas não tem somente eles aqui no rio, falta espaço pro gangsta (rap voltado pra realidade das periferias). 

JC: Como é a aceitação do Rap numa cidade onde predomina o funk?

OZ: Lá no morro a galera se amarra, quando fomos tocar no hip-hop no santa marta também, já tocamos em boate também, o que falta é espaço pra galera ver. A galera se restringe nos condomínios só ouvindo trance, pop, hip-hop gringo e funk, não escutam mpb, os raps antigos como Mc Marcinho e rap pra essa galera é havaianos, bonde do machuca, hip-hop pra eles se restringe a Ja-Rule, 50 Cent, não conhecem a essência como Nas, África Bambata, Krs-One, é falta de informação mesmo.

JC: você acha que o hip-hop virou hip-pop?

OZ: Mas faz parte do jogo também (risos), acho que se não tivesse não abriria tanto as portas pro rap, mais lá do que aqui né.

JC: Quais suas influências?

OZ: 2pac e Notorius Big foram os primeiros, aqueles malucos com roupas largonas aí comecei a andar assim também, mas eu queria que o rap saísse instantâneo, comecei a pesquisar a história dos caras a ler mais, isso foi de 2004 pra 2005. eu não fazia nada, nem free-style. Aí comecei a conhecer mais o rap nacional como racionais, MV Bill, Gabriel o Pensador, APC 16, Pentágono, SNJ, Thaíde, RZO e quando conheci Sabotage…fiquei louco.

 JC: E o que há de ruim no Rap?

OZ: Eu acho de ruim as atitudes em cima do palco como o uso de maconha, porque tem moleques vendo e isso é uma influencia, os garotos novos são muito influenciáveis. Você tá com o Mic (microfone) na mão e tem que passar uma mensagem boa porque vai influenciar em quem está assistindo.

 JC: Fale um pouco sobre o projeto na rádio comunitária na Rocinha. Como começou?

OZ: Fizemos um show na Rocinha e depois convidaram a gente pra fazer uma entrevista na rádio, a proprietária se amarrou no nosso som e convidou a gente pra fazer um piloto e todos gostaram. Hoje temos audiência de varias partes do Brasil e do mundo, porque o programa pode ser ouvido pela internet. Não fica só restrito pra quem tem computador, quem tem um radinho de pilha também consegue ouvir, mas somente quem mora lá na área (Rocinha). Divulgamos bem o rap na rádio, damos mais ênfase no rap nacional pra poder dar uma moral pra galera que não tem espaço.

JC: Além do projeto da rádio comunitária “Sintonia Urbana”, quais os outros meios de divulgação para suas músicas?

OZ: Internet né mano, MySpace, Orkut, agora to aprendendo a mexer no Twitter, Facebook, é o melhor meio e mais barato pra divulgar os nossos trabalhos.

 “…Você tá com o Mic (microfone) na mão

e tem que passar uma mensagem boa porque

vai influenciar em quem está assistindo…”

 JC: Você acha que com a divulgação através da internet (Download/MP3) o CD pode acabar?

OZ: Com certeza, eu vi uma matéria sobre uma loja nos Estados Unidos especializada em CDs e agora o quadro de funcionários foi reduzido por causa do pouco movimento, jogada às moscas. Você vê nas Lojas Americanas, um Cd que ontem custava 30 Reais, hoje custa 10, 5 Reais. Ta caindo muito, essa é a tendência mesmo.

 JC: O cenário independente do Rap é muito forte devido a pouca credibilidade que as gravadoras dão a esse estilo musical. Você acha que o Rap está fadado ao “faça você mesmo”, pelo menos aqui no Brasil?

OZ: Não eu acho que vai mudar. Nos Estados Unidos era assim também, os caras gravavam na Tape e saiam vendendo. Mas o jeito é esse mesmo, ir levando no independente até atingir a grande massa. Temos exemplo da Negra-Li, Kabal, D2 são todos de grandes gravadoras e aos poucos vamos ganhando esse mercado que ainda não despertou pro rap nacional.

comentários
  1. […] Entrevista PENSATIVUS: Rap direto da Rocinha […]

  2. Guilherme Rimas disse:

    o rap da favela em boas mãos, mó satisfação ter esse grupo aki na comunidade…
    tamu junto pelo morro, pela verdade e pela justiça …

  3. Diogof disse:

    Deixemos de lado os conflitos entre gêneros musicais e disputa de espaços, tem espaço pra todos, se nosso primeiro pensamento é que achamos o nosso espaço pequeno, o segundo pensamento deve ser a intenção de amplia-lo. Com certeza veremos muito mais vezes shows de quem é de casa.

    Que a positividade de seu Rap invada cada vez mais a nossa favela e o resto do mundo.

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